Herói safado ou anjo torto?

A regra é a camisa-de-força da exceção. Existem casos, porém, em que os pesos dessa relação de domínio e submissão invertem seus valores de tal maneira, que uma lei, digamos, irrevogável é dominada pela rebeldia da própria sombra. Todo Golias …

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A regra é a camisa-de-força da exceção.

Existem casos, porém, em que os pesos dessa relação de domínio e submissão invertem seus valores de tal maneira, que uma lei, digamos, irrevogável é dominada pela rebeldia da própria sombra. Todo Golias tem o seu Davi, para levar a conversa para linguagem cristã.

Um exemplo dessa travessura rasga Belém de ponta a ponta, sobre um celim sem conforto, com tresloucada alegria, há décadas.

É o viado da bicicleta.

Quem nunca o viu, exibindo a lordose como um fardão de veludo, da Cremação ao Umarizal, da Matinha à Presidente Vargas, de Nazaré ao Guamá?

Perdão. Chamar aquele côncavo vertebral de lordose é reduzir as ilusões a pó, tosar as asas da imaginação, cegar o susto, engolir o soluço.

Aquela talvez seja a maior de todas as lordoses já surgidas numa coluna: a super lordose. Uma lorverdose, eu diria.

Tratar aquele vão como desvio é como acatar a lógica do Entroncamento, a obra-prima da engenharia de tráfego de Belém, infelizmente executada pelo avesso.

Ao viado da bicicleta, porém, os louros (mesmo que ele seja chegado a um negão).

Ele representa a desmoralização da lei da gravidade, com sua inusitada falta de eixo. É a exceção, despida da camisa-de-força, levando a regra a nocaute, com despeito.

Tenho a impressão, quando o vejo, que em algum momento, talvez numa lombada do caminho, o osso occipital, que conecta a nossa coluna ao norte, vai se agasalhar nas reentrâncias do ilíaco, no cone sul. Como se fosse a coisa mais normal do mundo andar por aí, pedalando, com o pescoço imitando um elevador.

Imagine o Homem-Mola, de férias das aventuras de Os Impossíveis, brincando em Belém de roçar a nuca no cóccix para delírio da galera. Êêêê!

O viado da bicicleta é o improvável em movimento.

E não está nem aí.

Calça as sandálias da incógnita, as luvas do deboche, municia o vocabulário com os impropérios de vogais elásticas para as respostas que deverá lançar a quem o fustiga, pula da vida seca para a frigideira da popularidade como uma pipoca errante, injeta na veia a autoestima das bruxas malvadas, que se contentam com a versão esquizofrênica dos espelhos – e pedala. Pedala muito.

É a caricatura do ciclista belemense em três dimensões – quatro se for valorada a profundidade do desvio dorsal, calculada a parábola de seu eixo imaginário e pervertido, considerado o raio da anômala reentrância.

Ou, quem sabe, seria ele apenas uma ilusão, um mito, um símbolo.

O grito do ciclista na condição de anão do trânsito, o mais fraco, para quem a rua é uma corda-bamba ligando a esperança da partida com a incerteza da chegada, sem rede de proteção.

Um fantasma, talvez. Um delírio.

A visagem sapeca que desliza entre os carros derramando merthiolate nas feridas do trânsito, só de sacanagem.

A miragem cerzida pelo medo da guerra urbana, um Quasímodo a ferver nossos preconceitos no calor da calçada e desafiar nosso meio-fio de tolerância.

O bicho do pé, a afta da gengiva, o cisco no olho, a espinha no ouvido, o cabelo arruinado no… você entende.

O viado da bicicleta pode ser traduzido como a essência do incômodo: seu perfil delgado me remete ao único par entre os números primos, o saliente 2, mas ainda assim apenas o reflexo do 2, o numeral invertido no espelho, o desenho do patinho na lagoa, solitário e em marcha à ré.

Pode também não ser coisíssima nenhuma.

Apenas um viado, mesmo, debochado e suado, predestinado a ser errado assim, como um querubim safado.

Feliz e triste ao mesmo tempo. Engraçado, embora inconveniente. Aceitável, porém esquisito. Heroi e insolente. Um personagem, enfim, sem precisão de nexo, carimbo de sexo ou condição de amplexo.

Como os anjos, que a gente não explica, jamais define e nunca abraça.

Incluindo os anjos tortos.

Aqueles que escapam da camisa-de-força, pelos atalhos da exceção.

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* É jornalista, natural de Marapanim.

 

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