Poluição do Tapajós comprovada há 27 anos

A hipótese atual de que o Rio Tapajós estaria novamente sendo uma calha de despejo de lama e produtos químicos lançados nos garimpos no seu médio curso tem um antecedente, grave antecedente comprovado por pesquisas científicas, entre outras, pesquisa de campo coordenada pelo Professor Manoel Quaresma da Costa, do Laboratório de Absorção Atômica do Centro de Geociências da Universidade Federal do Pará. A contaminação foi comprovada há 27 anos.

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Por Manuel Dutra

BELÉM - A hipótese atual de que o Rio Tapajós estaria novamente sendo uma calha de despejo de lama e produtos químicos lançados nos garimpos no seu médio curso tem um antecedente, grave antecedente comprovado por pesquisas científicas, entre outras, pesquisa de campo coordenada pelo Professor Manoel Quaresma da Costa, do Laboratório de Absorção Atômica do Centro de Geociências da Universidade Federal do Pará. A contaminação foi comprovada há 27 anos.

Há 30 anos a garimpagem era totalmente artesanal. Hoje é mecanizada

Os resultados eu publiquei em reportagem no jornal O Liberal, de Belém, no dia 12 de dezembro de 1987. Nos últimos 25 anos o rio se regenerou relativamente, em virtude de fatores econômicos, como a acentuada queda nos preços do ouro no mercado internacional naquele período e também por efeito de medidas econômicas no início do governo Collor, entre elas a retenção da poupança. Inúmeros garimpeiros migraram para outras partes da Amazônia e a atividade, no Tapajós, reduziu-se exponencialmente.

Nos últimos três anos, com a subida dos preços do ouro, a garimpagem retorna com força ao Vale do Tapajós/Jamanxim. Agora, no entanto, não se trata mais da ação de milhares de peões, mas é introduzida tecnologia bem mais avançada que dispensa a mão de obra de milhares de homens. O grosso da garimpagem se faz por meio de enormes dragas, possantes.
A Secretaria de Meio Ambiente do Pará tenta um acordo com os donos de cerca de 70 dragas em atividade no município de Itaituba, a fim de que se adequem às normas ambientais e evitem a contaminação dos rios. Pouca informação há a respeito desse acordo.

Naqueles anos o pirarucu teve amostras positivas, contaminadas por mercúrio

Por isso, um grupo de pessoas está providenciando uma petição pública que será entregue ao governador Simão Jatene no final de janeiro, requerendo a imediata realização de pesquisa a ser levada a campo e aos laboratórios por pesquisadores da UFPA e da Ufopa, com solicitação de conclusão até início de julho deste ano. Com essa medida os signatários da petição querem que desapareça a dúvida e as informações não comprovadas sobre a contaminação ou não do Tapajós, de suas praias, de seus peixes com prejuízo para a saúde pública e a economia regional.

A seguir, reproduzo trecho de uma longa reportagem que publiquei no Liberal, de Belém, há 27 anos. ADVERTÊNCIA AO LEITOR: Não esquecer que este relato se refere à situação do Vale do Tapajós há quase três décadas, não sendo, portanto, a situação de hoje. Mas serve como um sério alerta para as dúvidas atuais, com a pergunta: essa catástrofe pode se repetir agora?
A seguir, o relato de dezembro de 1987:

A garimpagem, a grande e tortuosa oportunidade para homens e mulheres desesperados e sem alternativas na atividade agrícola, é hoje a mais aterrorizante fonte de uma poluição ainda mais perversa e devastadora. Toneladas incontáveis de barrancos já rolaram para dentro dos rios e igarapés cujos leitos já foram revirados pelas dragas. O rastro da destruição já mudou a cor de muitos cursos d’água, matou-lhes a vida, contaminou seus peixes, afetando rios maiores como o médio Tapajós, cujas águas estão hoje totalmente descaracterizadas, turvas. Um grande esgoto em formação.
Ao lado da poluição física dos rios, desce a avalanche mortífera resultante do derrame e da vaporização de toneladas de mercúrio, o mais venenoso dos metais pesados, empregado na garimpagem como meio para juntar as fagulhas do ouro no fundo das bateias e que depois será queimado, na separação dos dois metais. Estima-se que, nos últimos dez anos, com o empobrecimento de antigos veios aluvionares, mais mercúrio vem sendo empregado, chegando a superar, em volume, o ouro extraído. “Por cima”, como se diz na região, a média pode estar entre um quilo e um quilo e 200 gramas de mercúrio para um quilo de ouro.
A serem aceitáveis as estimativas sobre o volume de ouro extraído anualmente dos quase 300 centros maiores de garimpagem de Itaituba, infere-se que, de 1983 até agora, algo em torno de 250 toneladas de mercúrio foram disseminadas nas águas e no solo (no mundo, são empregadas 10 mil toneladas de mercúrio na mineração, na indústria e nas atividades agrícolas). No vale do Tapajós a mineração vem de 1958. Na verdade, não existem dados sobre a contaminação no interior da Amazônia. Mas já se sabe que a contaminação existe, que é grave, volumosa e seus efeitos começam a ser detectados cientificamente.
É certo que hoje uma parte da população dos municípios de Itaituba, Aveiro e Santarém está comendo peixe contaminado pelo metilmercúrio, o veneno decorrente das transformações químicas que o metal sofre após a manipulação, embora a fauna, como um todo, não esteja ainda afetada em níveis superiores ao que suporta o organismo humano. Contradizendo a opinião de muitos que ainda teimam em afirmar que “esse negócio de poluição é coisa da cabeça de ecologista”, um exame laboratorial realizado na semana passada revelou que um tucunaré, capturado no Tapajós, perto de Santarém, apresentava contaminação mercurial, embora em níveis aceitáveis, segundo parâmetros estabelecidos em alguns países desenvolvidos.
Há menos de um mês, outro exame efetuado em cinco amostras de peixes capturados um pouco acima de Itaituba, revelou que a carne de um pirarucu apresentava 1.088 ppb (partes por bilhão) de mercúrio, isto é, mais que o dobro do aceitável para consumo humano, que é de 500 ppb, conforme a literatura a respeito do assunto, existente em outros países. O problema ainda é muito pouco pesquisado no Brasil, mas é aceito o princípio segundo o qual nos peixes contaminados é encontrada uma variação que pode ir de 10% a 80% de metilmercúrio, a forma mais perigosa do mercúrio, capaz de devastar o organismo humano.
MASSA VENENOSA Os exames foram feitos pelo professor Manoel Quaresma da Costa, no Laboratório de Absorção Atômica do Centro de Geociências da Universidade Federal do Pará. Ele explicou que essa variação não pode ser aferida aqui, mas o fato é aceito pela legislação de países que já controlam a contaminação dos peixes pelo mercúrio. O professor Quaresma mostra-se interessado em aprofundar as pesquisas, pois, como poucos outros estudiosos, ele está convencido da gravidade do problema. O Brasil só possui legislação referente à contaminação das águas e, em quase todo o mundo, o emprego de derivados de mercúrio em pesticidas está proibido, para evitar desastres como os verificados no Iraque, Paquistão e Guatemala, onde centenas de pessoas morreram após ingerir grãos contaminados.
No Brasil tais pesticidas foram proibidos em 1975, através de Portaria do Ministério da Agricultura, sendo permitido o uso do mercúrio apenas na conservação de sementes, com a exigência de alerta nas embalagens. Embora somente de 3% a 5% do mercúrio empregado nos países industrializados sejam oriundos dos fungicidas, há estudos que comprovam que, com o passar do tempo, o solo e o lençol freático passam a absorver perigosamente a substância.
Com relação ao pirarucu de Itaituba, os exames foram repetidos, confirmando o laudo anterior, com a agravante de que, cinco dias depois, quando a carne do peixe já estava seca, novo exame atestou uma concentração mercurial três vezes superior às primeiras análises, no pescado fresco. A constatação é que aquele pirarucu era uma massa venenosa. A contaminação do tucunaré pescado em Santarém, embora em níveis ainda aceitáveis pelo organismo humano, pode decorrer das migrações dos cardumes e não do completo comprometimento do rio, o que, se comprovado, já seria a catástrofe, com o Tapajós envenenado das cabeceiras à foz.
O professor Quaresma está interessado em analisar espécies que vivem nos fundos dos lagos, como o acari e o tamuatá, para tentar a analogia com espécies marinhas, como as ostras e outros frutos do mar que vivem no fundo, mais sujeitos aos depósitos contaminantes, pelo que são considerados indicadores bioquímicos de poluição. Por essa razão também os peixes de maior porte estão mais sujeitos à contaminação, pelo fato de transitarem por águas profundas, como é o caso do pirarucu, cuja amostra deixa poucas dúvidas.
           
“ASSOMBRARÁ O MUNDO”  Há dez anos, ao apresentar dissertação para obtenção de grau de “mestre em Saúde Pública” no Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, a professora Ruth Gouveia Duarte, em seu trabalho intitulado “Detecção de Mercúrio em Tecidos de Peixes”, relacionou, por ordem ascendente de severidade, os sintomas verificados nas pessoas envenenadas pelo metal pesado.
A partir de estudos efetuados em vários países, e por observação própria, ela diz que os principais sintomas são a parestesia da boca (sensações anormais), dos lábios, língua, mãos e dedos; constrição do campo visual, dificuldades de audição, distúrbios de expressão (sons explosivos e dificuldade de articular as palavras); neurastenia, fadiga, incapacidade de concentração, de escrever, ler e recordar coisas banais e familiares; instabilidade emocional, acessos de raiva e depressão; andar cambaleante, movimentos descoordenados, paralisia.
Finalmente, surge o estupor, o coma e a morte nos casos extremos e não assistidos pela medicina especializada. Pode haver um longo período de incubação e o mal pode regredir, se tratado, mesmo que os estragos causados pelo mercúrio sejam irreversíveis.
Num trabalho preparado para a Secretaria Especial do Meio Ambiente, (SEMA), sob o título “O garimpo de ouro no Brasil”, Maria Albertina Pires Maranhense Costa afirma, a respeito do envenenamento crônico decorrente do vapor de mercúrio, que “após uma longa exposição a níveis tóxicos de vapor de mercúrio, o sistema nervoso central é o órgão mais atingido”, levando a sintomas como fraqueza, fadiga, perda de peso e distúrbios gastro-intestinais.
“Nos casos mais graves, ocorrem delírios e alucinações”. Tais afirmações podem talvez explicar a expressão “garimpeiro doido”, existente na região, sendo tal “doidice” creditada aqui aos longos períodos de abstinência sexual a que se submetem trabalhadores nas áreas mais isoladas, ou à bebedeira.
Na cidade de Itaituba, o primeiro caso humano conhecido e constatado, de envenenamento pelo mercúrio, é o do comerciante Samuel Bemerguy (Samuca), 59 anos, natural do lugar onde vive até hoje. Depois de uma série de problemas de saúde e já pensando estar com alguma forma de câncer, ele encontrou tratamento especializado em São Paulo, onde o médico Daud Abucalla lhe explicou que “na região onde vocês moram está montada uma bomba de efeito retardado que assombrará o mundo; Chernobyl será coisa insignificante”.
POVO DOENTE  Depois de exames em laboratórios de São Paulo e Chicago, para onde mandou amostras de seu cabelo, Samuel foi cientificado de que seu organismo estava sendo devastado pelo metal. Inveterado pescador de todas as tardes, ele passou muitos anos comprando ouro que, muitas vezes, queimava pessoalmente sem maiores precauções.
Embora ainda não esteja suficientemente esclarecida a fonte que o contaminou, ele pode haver contraído a moléstia tanto do vapor como dos peixes que ingeria diariamente. “Houve época em que eu queimava o ouro aqui mesmo dentro de casa”, diz ele, acrescentando que sua mulher, Lélia, e um filho, estão sob tratamento também, embora com sintomas bem mais leves.
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