Pesquisa na Ufopa incentiva uso de biotecnologias reprodutivas na pecuária

A inseminação artificial possibilita hoje a utilização de touros que, comprovadamente, produzirão descendentes mais eficientes e precoces, ou seja, machos que irão para o abate mais cedo e fêmeas que também vão ficar prenhes mais cedo. Na região Oeste do Pará, os municípios de Novo Progresso e Itaituba apresentam maior quantidade de bovinos. Mesmo com um rebanho menor, Santarém vem se destacando no uso de biotecnologia reprodutiva. No Baixo Amazonas, o município de Monte Alegre possui o maior rebanho, seguido de Alenquer. Na Amazônia, a média de ocupação é de 1,06 cabeça de animal por hectare. O desafio dos pesquisadores e produtores rurais é dobrar essa quantidade para duas cabeças por hectare.

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A raça Nelore representa cerca de 80% do rebanho nacional de bovinos.

SANTARÉM – Pesquisar e incentivar o uso de biotecnologias reprodutivas na pecuária bovina do Oeste do Pará. Este é o objetivo principal do Grupo de Sanidade e Reprodução Animal, que reúne professores do curso de Zootecnia da Ufopa. Artigo publicado em janeiro deste ano na revista européia Reproduction in Domestic Animals, que apresenta dados sobre inseminação de vacas Nelore na Amazônia, dá uma mostra do trabalho que vem sendo realizado pelo grupo nessa área.

“Aliada a outras tecnologias de manejo de pastagens e de suplementação animal, a utilização de biotecnologias reprodutivas tem sido apontada como um dos caminhos para se conseguir a sustentabilidade da pecuária na Amazônia, com a verticalização da produção”, explica o professor Kedson Alessandri Lobo Neves, doutor em Reprodução Animal.

Intitulado “Effect of body condition score and reuse of progesterone-releasing intravaginal devices on conception rate following timed artificial insemination in Nelore cows”, o artigo mostra os resultados de estudo que investigou a eficiência da inseminação artificial em tempo fixo, através da utilização de dispositivo intravaginal liberador de progesterona em vacas da raça Nelore no sul do Pará.

De fator de impacto 1,4, a Reproduction in Domestic Animals é uma publicação oficial da European Society for Domestic Animal Reproduction (ESDAR), em parceria com a European Veterinary Society of Small Animal Reproduction (EVSSAR) e a Spanish Society of Animal Reproduction. “É uma revista europeia, reconhecida internacionalmente, com fator de impacto bom, o que é importante para divulgar o nome da universidade e dos pesquisadores”, afirma Kedson Neves.

O artigo foi escrito pelo doutorando Luciano Leite Pereira, aluno do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento (PPGSND) da Ufopa, em coautoria com os professores A. P. Ferreira, Willian Vale, Kedson Neves, Adriana Morini e Antonio Humberto Hamad Minervino, que coordena o Laboratório de Sanidade Animal (Larsana) da Ufopa. Também assinam o artigo o professor Bruno Monteiro, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP) e a aluna de pós-graduação Laila Serique.

O experimento foi realizado em uma fazenda do município de Santana do Araguaia, no sul do Pará, com 1122 fêmeas da raça Nelore, que representa cerca de 80% do rebanho nacional de bovinos. As matrizes foram divididas em três grupos, de acordo com o escore de condição corporal, para avaliar o efeito na prenhez quando do uso do implante intravaginal novo, usado uma vez e reutilizado duas vezes. Foi utilizado sêmen de touros da raça Nelore provenientes de centrais de inseminação autorizadas pelo Ministério da Agricultura.

As vacas com escore de condição corporal de 2,75 até 4, numa escala que vai até 5, apresentaram quase 70% de prenhez, com implante de primeiro uso, quando comparadas com animais com escore corporal de 2 a 2,5, que atingiram apenas 32% de prenhez. “Quando esse animal vai decaindo o escore de condição corporal e o implante vai sendo reutilizado, o índice de prenhez vai diminuindo”, explica o professor Kedson Neves.

O estudo mostrou que a matriz tem que estar com boa condição corporal para que possa ser utilizada numa inseminação artificial em tempo fixo. “Quando a vaca está com um escore medianamente bom, acima de 2,75, a chance dela emprenhar é maior”, explica. “Essa informação é importante porque há muitos veterinários que estão no campo fazendo, na rotina do dia a dia, essas inseminações. Com base nessa informação, eles vão trabalhar no sentido de melhorar o escore corporal do animal antes de aplicar a tecnologia, visando obter melhor resultado”.

PECUÁRIA Segundo o professor da Ufopa, a inseminação artificial possibilita hoje a utilização de touros que, comprovadamente, produzirão descendentes mais eficientes e precoces, ou seja, machos que irão para o abate mais cedo e fêmeas que também vão ficar prenhes mais cedo. “Isso faz com que tenhamos um crescimento do rebanho sem aumentar o desmatamento. Essa é a importância desse tipo de pesquisa que temos feito na região”.

Na região Oeste do Pará, os municípios de Novo Progresso e Itaituba apresentam maior quantidade de bovinos. Mesmo com um rebanho menor, Santarém vem se destacando no uso de biotecnologia reprodutiva. “Os acadêmicos que se interessam por essa área animal, quando retornam para os seus municípios, têm sido difusores de tecnologia no campo, e isso está melhorando a região como um todo”, comemora Neves.

No Baixo Amazonas, o município de Monte Alegre possui o maior rebanho, seguido de Alenquer. “Todos estão utilizando biotecnologias, ainda em escala pequena. Nós queremos ampliar esse uso. É isso que a Universidade vem fazendo, junto com os veterinários de campo, agrônomos e zootecnistas, parceiros que nos apoiam, passando informações e recebendo qualificação pela Universidade. Esses parceiros têm sido pontas de lança nos municípios, levado essa informação e divulgado bastante. A gente espera que, em um breve intervalo de tempo, a pecuária na região tenha uma outra cara”.

Na Amazônia, a média de ocupação é de 1,06 cabeça de animal por hectare. O desafio dos pesquisadores e produtores rurais é dobrar essa quantidade para duas cabeças por hectare. “Posso diminuir a área de pastagem pela metade e ceder para a agricultura e o reflorestamento”, afirma Neves. “É isso que estamos trabalhando fortemente, em intensificar a atividade pecuária, porque ainda se tem a ideia de que a pecuária agride ao meio ambiente, que não é sustentável do ponto de vista econômico, que tem uma série de falhas. Existe ainda muito disso como verdadeiro, no entanto, o que observamos é que está havendo uma mudança muito grande. Muitos produtores aderindo às novas tecnologias, porque eles precisam ser eficientes para poder permanecer na atividade”.

A média nacional hoje para o abate está em torno de 40 a 46 meses. “Os produtos dessas inseminações têm condições de ir para o abate com 24 meses, porque são animais melhorados geneticamente. Com a inseminação posso utilizar sêmen de outras raças mais produtivas, como a Angus, para dar o choque genético”.

ANDAMENTO Além da inseminação artificial, outros experimentos de campo estão sendo realizados pelos professores da Ufopa. A professora Lana Lima Silva, que coordena o curso de Zootecnia, está avaliando a puberdade em tourinhos Nelore através da ultrassonografia Doppler, para identificar mais precocemente a puberdade desses tourinhos. O estudo tem por objetivo identificar os animais que produzem sêmen mais precocemente e coletar esse material para difundir na região, possibilitando avanço genético importante no rebanho regional.

Outra pesquisa coordenada pelo professor Neves visa a identificar as condições necessárias para se produzir uma prenhez em novilhas de 14 meses. “A média nacional de prenhez se dá em torno de 24 a 36 meses”, explica. “Queremos antecipar esse período e, para isso, estamos avaliando o diâmetro de útero e o ovário, e testando alguns protocolos. Agora em maio vai ocorrer a inseminação dessas fêmeas e, em breve, teremos alguns resultados com relação a isso”.

A pesquisa inclui ainda a pesagem das matrizes antes de elas parirem, no parto (pesa a matriz e o bezerro) e a cada 30 dias. “Queremos ver a curva de perda de peso para identificar quando a vaca começa a se recuperar para poder emprenhar novamente”, esclarece o pesquisador. “Existem dados na literatura referentes ao tempo que a fêmea precisa para se recuperar. No entanto, esses dados são de fora da nossa região e estamos trabalhando para produzir conhecimento local e regional, dentro das nossas condições ambientais”. (Ascom/Ufopa)

 

 

 

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