Os pobres da Amazônia não são passivos e podem mudar a sua História

Os povos da Amazônia não são passivos, muito menos estúpidos que desconhecem essa realidade repleta de ameaças, expulsões, assassinatos, tudo em nome da mineração que já abarca quase o estado do Pará inteiro, dos madeireiros predadores, dos que açambarcam a terra e os rios e mandam para a beira das rodovias milhares de famílias que ficam sem ter onde por os pés e as mãos para criarem os seus filhos. Esse espírito de luta precisa ser retomado, maciçamente. O mais potente exemplo vem da História da Amazônia, do momento em que a massa humilhada, a escória como a chamavam os senhores de ontem, levantou-se para tentar reconstruir o seu mundo.

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Por Manuel Dutra

Pescador do rio Ituqui conserta sua rede de pesca (foto MD)

No momento em que o “governo” federal retoma e intensifica a repartição dos recursos da Amazônia entre poderosos grupos do grande capital, demonstrando o máximo desrespeito aos povos que aqui nasceram e/ou aqui vivem, um crescente número de pessoas junta-se no movimento Resiste Amazônia, aqui em Belém. É, pois, chegada a hora de uma ação firme e decidida do próprio povo em sua própria defesa.

Os povos da Amazônia não são passivos, muito menos estúpidos que desconhecem essa realidade repleta de ameaças, expulsões, assassinatos, tudo em nome da mineração que já abarca quase o estado do Pará inteiro, dos madeireiros predadores, dos que açambarcam a terra e os rios e mandam para a beira das rodovias milhares de famílias que ficam sem ter onde por os pés e as mãos para criarem os seus filhos.

Esse espírito de luta precisa ser retomado, maciçamente. O mais potente exemplo vem da História da Amazônia, do momento em que a massa humilhada, a escória como a chamavam os senhores de ontem, levantou-se para tentar reconstruir o seu mundo. Foi aquilo a que chamamos de Cabanagem, história muito mal contada nas escolas, tanto quanto faz certa elite de hoje, classificando o povo trabalhador de “preguiçosos”, incapazes, ladrões e assaltantes contumazes, especialmente se sua pele for da cor da pele da maioria, preta, morena, baça indígena ou trigueira.

Integrantes do Movimento Resiste Amazônia (Foto Blog do Piteira)

Diante desse quadro bem atual, lembrei-me de uma entrevista que fiz em 2009 com um estudioso das coisas da Amazônia, embora resida e trabalhe bem longe daqui. Trata-se do professor e antropólogo Mark Harris, que viveu no interior do Pará, pesquisando, e deu aulas por algum tempo na UFPA. Com relativa frequência ele está de volta, a mais recente quando passou as festas de ano novo em Alter do Chão, juntamente com a esposa Ana e os três filhos.

A reportagem foi publicada pela primeira vez em junho de 2009, dentro de um encarte do jornal Gazeta de Santarém, do amigo Celivaldo Carneiro. Nela, Mark Harris mostra as suas descobertas, a luta do povo de ontem e as energias empregadas naquele momento e que podem ser revividas hoje.

O resultado de seus estudos sobre a luta do povo amazônida no século 19 está no livro que ele publicou em 2010 pela Universidade de Cambridge, ainda sem tradução para o Português. O título original é: Rebellion on the Amazon: The Cabanagem, Race, and Popular Culture in the North of Brazil, 1798–1840.

Para o pesquisador escocês as condições que levaram os pobres de outrora à luta pela liberdade estão presentes hoje ainda, em razão do “estado de semi-escravidão dos pobres, seja através de dívidas ou de clientelismo político, e a imposição de planos de desenvolvimento e gestão completamente desconectados da realidade e das condições locais. Os de fora parecem achar que sabem o que é a Amazônia sem, de fato, fazer nenhum esforço para entendê-la. Neste sentido a Amazônia permanece marginal”.

A seguir a matéria completa:

Ilustração de Luiz Pinto sobre a Cabanagem

Ecuipiranga foi o principal centro de resistência cabana fora de Belém, até julho de 1837. Pela primeira (e última vez) um número expressivo de povos distintos – mestiços, índios, negros e brancos pobres – juntou-se, com relativo sucesso, para promover uma revolução que, embora de caráter heterogêneo, tinha como objetivo comum botar um fim ao regime de exploração humana que reinava na Amazônia. Chegou a tomar o poder provincial por quase um ano e meio.

Esta constatação brota das pesquisas documentais e de campo que vêm sendo realizadas há mais de 15 anos pelo antropólogo Mark Harris, doutor em Antropologia Social, professor e pesquisador da Universidade St-Andrews, na Escócia. Como um dos estudiosos contemporâneos da cabanagem, ele já residiu no Pará, tendo permanecido no interior de Óbidos por um ano e meio, pesquisando para sua tese de doutorado. Também morou em Ananindeua, na região metropolitana de Belém, tendo lecionado e pesquisado na Universidade Federal do Pará.

Sobre Ecuipiranga, afirma Harris, aquela localidade teve um significado muito importante no correr da guerra. Para lá quis se refugiar, para prosseguir a resistência às forças imperiais, o governador cabano Eduardo Angelim. Afirma o pesquisador: “Sim, há provas conclusivas de que Ecuipiranga foi o principal centro cabano fora de Belém, até julho de 1837, quando foi completamente destruída por Antônio Sanches de Brito e Bararoá”. Diz ele que “segundo o historiador Domingos Antonio Raiol, o governador cabano Eduardo Angelim decidiu ir pra lá quando Belém foi retomada pelas forças imperiais”, porém sem ter tido tempo de pôr em prática o projeto.

Para Harris, diversas fontes citam Ecuipiranga como sendo o centro das operações militares dos cabanos entre 1836 e 1837, no interior. Mas a importância dessa localidade e de outros agrupamentos rebeldes (e consequentemente a dimensão apropriada da rebelião) foi ofuscada pela importância dada, pelos historiadores, a Belém e seus líderes.

A seguir, a entrevista que nos concedeu Mark Harris, desde sua casa, na cidade de Saint Andrews, Escócia. Embora fale Português, combinamos que as respostas seriam dadas em inglês, por óbvias razões de maior clareza nas respostas. A tradução é de Moisés Dutra:

O antropólogo Mark Harris em palestra no Iespes

Pergunta (P) - Na sua mais recente viagem, em 2004, à região do Tapajós/Arapiuns, que indícios o senhor encontrou que podem ser apontados como sinais materiais da cabanagem?

Mark Harris (MH) - Encontrei indícios de trincheiras defensivas em Pinhel. Havia vários tipos delas por lá. Uma delas era um grande fosso arredondado de cerca de vinte metros de diâmetro. Muito provavelmente serviu de armadilha, com algum tipo de camuflagem como cobertura e grandes estacas pontiagudas na base. Havia também pequenas valas, talvez usadas pelas pessoas para defender suas posições e rechaçar algum eventual ataque. Algumas valas estavam mais visíveis do que outras. Toda a região estava coberta de árvores e muito mato, o que dificultava ter uma visão completa.

Não encontrei o mesmo tipo de indícios fora de Pinhel. É preciso deixar claro, no entanto, que tenho apenas a palavra dos moradores da região de que esses vestígios encontrados são da época da Cabanagem. Mas considerando o fato de não ter ocorrido nenhum outro conflito ou rebelião na região (que seja documentado), parece provável que as trincheiras sejam mesmo dos anos 1830. Documentos históricos em Belém descrevem a organização defensiva dos rebeldes, que inclui trincheiras em Santarém cobertas com peles de animais e esteiras, entre outros. Até aqui não encontrei nos registros oficiais nenhum outro local que teria tido defesas, com a exceção de Ecuipiranga, que tinha um forte. Mas considerando-se a existência das trincheiras em Pinhel, parece provável supor que a maioria dos agrupamentos rebeldes tenha tinha tido algum tipo de defesa. Afinal, trincheiras já eram usadas comumente nos mocambos, como proteção.

Eu fui a Ecuipiranga em julho de 2004, seguindo uma trilha bem acidentada, no sentido sul-norte. Lá eu não encontrei nenhum vestígio da Cabanagem. Mas esta foi apenas uma curta viagem exploratória, sem muito contato com os moradores. Deve haver vestígios de trincheiras ou algo mais nas redondezas.

Além disso, a ausência de documentação detalhada sobre as atividades dos cabanos durante a Cabanagem é significativa. Indica que os rebeldes não tinham que prestar contas de suas atividades ou reportar-se a superiores. Claramente as provas materiais indicam a possibilidade de que Pinhel tenha sido de fato um importante centro cabano no Tapajós, contando com cerca de uma centena de homens, ou mais. Caso contrário, o sistema defensivo encontrado lá não teria sido construído. Meu palpite é que ele seja do final de 1836, depois do período em que Santarém foi tomada pelas forças imperiais (após Belém já ter sido reconquistada e a região do Baixo Amazonas pacificada). Isto acabou empurrando os rebeldes interior a dentro. Há muita coisa não documentada sobre a Cabanagem. Felizmente, devido às trincheiras, agora sabemos um pouco mais.

A tradição oral é também outra fonte na qual podemos nos basear. Porque, apesar de não apresentar provas materiais concretas, é certamente útil em nos ajudar a montar os pedaços que faltam no quebra-cabeças da compreensão da dimensão da Cabanagem e do que foi a sua repressão. Embora eu tenha levado a cabo uma pesquisa um tanto limitada, fiquei surpreso, durante minhas visitas a certas vilas no Tapajós, com a abrangência e vitalidade dos relatos sobre a Cabanagem, mesmo cerca de 180 anos depois.

COVAS COLETIVAS 

P – O senhor encontrou covas onde eram jogados os corpos dos revoltosos? Em que localidades observou essas sepulturas comuns?

MH – Não ouvi falar e nem encontrei vestígios de covas coletivas. Mas não me surpreenderia descobrir que elas existem. Como eu disse anteriormente, há tantas coisas sobre as quais nós não sabemos que temos que procurar fontes alternativas para alargar o nosso conhecimento. É válido dizer também que diversos textos e documentos mencionam que corpos eram jogados diretamente no rio, e não enterrados. Dada a dificuldade de se cavar uma cova coletiva, é possível se imaginar que ela só seria construída se realmente houvesse uma boa razão para tal. Eu não assumiria automaticamente que houve covas coletivas durante a Cabanagem. Por exemplo, elas poderiam ter sido feitas nos séculos 17 e 18, durante o etnocídio de indígenas que viviam na região do Tapajós.

P – Em decorrência de suas pesquisas, concorda que Ecuipiranga (hoje Cuipiranga) foi de fato um palco destacado ao longo da guerra pelo interior do Pará?

MH – Sim, há provas conclusivas de que Ecuipiranga foi o principal centro cabano fora de Belém até julho de 1837, quando foi completamente destruída por Antônio Sanches de Brito e Bararoá. Segundo Raiol, Angelim decidiu ir para lá quando Belém foi retomada pelas forças imperiais. Diversas fontes citam este local como sendo o centro das operações militares dos cabanos entre 1836 e 1837 no interior. Mas a importância de Ecuipiranga e de outros agrupamentos rebeldes (e consequentemente a dimensão apropriada da rebelião) foi ofuscada pela importância dada a Belém e seus líderes.

Quando o agrupamento militar de Ecuipiranga foi destruído, os cabanos se refugiaram em outros locais, cada vez mais isolados e de difícil acesso, a maior parte na região entre os rios Madeira e Tapajós, perto de Maués ou Luzea, como eram conhecidas na época.

P – A escolha de Cuipiranga, justamente na confluência do Tapajós com o Arapiuns,  foi uma escolha estratégica inteligente dos revoltosos? Essa localidade tem fundos para o rio Amazonas: foi essa topografia que fez com que os cabanos ali resistissem durante dois anos? Ou o que fez com eles resistissem por tanto tempo?

MH – Não há nada documentado com relação à escolha de Ecuipiranga pelos rebeldes. Mas objetivamente falando, o local é uma posição militar extraordinária. Ao sul, a baía da boca do Tapajós pode ser vista, então toda a movimentação vinda de Santarém podia ser observada. Ao norte o rio Amazonas margeia barrancos íngremes. E havia também fácil acesso ao rio Arapiuns e às trilhas terrestres que iam para oeste. Era um bom lugar para se iniciar ataques às regiões vizinhas e para se esconder, mas não tão bom para se defender. As forças imperiais conseguiram bloquear a área, provavelmente apenas parcialmente, mas de qualquer maneira o suficiente para enfraquecer a posição rebelde até o ataque de larga escala que estava por vir.

P – As suas pesquisas estão revelando quais as verdadeiras raízes da cabanagem?

MH – Sim, eu acredito ter uma certa compreensão do que motivava a revolta cabana. Penso que seja realmente importante começar com o que foi escrito e dito sobre eles. Embora pouca coisa tenha restado, há o bastante nos escritos de Domingos Antônio Raiol e em diversas outras fontes (como por exemplo, o Arquivo Público de Belém) para nos dar uma boa idéia a respeito da motivação existente.

Raiol transcreve alguns pronunciamentos e anúncios e algumas cartas de Eduardo Angelim. Para começo de conversa, os soldados de Ecuipiranga se auto-intitulavam as “Forças dos Brasileiros Reunidos”. Esta auto-descrição indicava a lealdade deles a um Brasil independente, e aversão aos que exploravam o país sem legitimidade. Além disso, o termo “reunidos” indicava plenamente quais eram os reais interesses. Em Belém, Angelim e Antonio Vinagre, os líderes da tomada da cidade em 1835, referiam-se a si mesmos como “defensores da pátria e da liberdade”. Ou seja, eles se viam primordialmente como brasileiros e, mais importante, como cidadãos com direito a participar do processo político, que podiam escolher seus líderes e serem tratados em igualdade de direitos perante a lei. Importante ressaltar que não há sustentação na tese de que os rebeldes queriam se separar do Brasil e abolir a escravatura. Eles reconheciam a autoridade de D. Pedro II. Poderíamos dizer que as motivações da Cabanagem foram a participação popular e a interpretação das instituições do Estado.

LINGUAGEM E ESTRATÉGIA 

Prossegue M. Harris: Os políticos liberais da época deram ao povo a linguagem e a estratégia prática para dar vazão a seus anseios e suas reclamações (tais como cidadania e direitos individuais; justiça social e igualdade perante a lei para todos, e não apenas para os ricos e para a elite; auto-determinação; e por aí vai). Entretanto eu diria que, tanto quanto o liberalismo, a própria cultura e o modo de vida do povo pobre da Amazônia serviu pra definir as motivações rebeldes. Isto, eu acredito, tem sérias implicações. A retórica liberal dos rebeldes patrióticos faz a rebelião se parecer com as outras do período regencial.

Mas, se por um lado, a Cabanagem pode ser contextualizada dentro do momento político dos anos 1830, por outro lado é importante ressaltar que a Amazônia não era a mesma coisa que o resto do Brasil – ela tinha a sua própria história e sociedade. Assim sendo, existem muitas características específicas e locais da Cabanagem que não podem ser facilmente contextualizadas dentro do período regencial.

E que características são essas? A Amazônia tinha um estilo de vida dependente do rio, que conectava toda uma vasta região geográfica; uma sociedade heterogênea e menos hierárquica, se comparada com o resto do Brasil; uma maior integração social entre diferentes identidades étnicas; uma presença indígena mais forte na cultura e na organização social; uma economia baseada na extração e não na produção, entre outras. Se seguirmos esta argumentação, precisaremos entender a Cabanagem em termos da história da região. E isso significa começar pelo período colonial e, em particular, pelas políticas portuguesas durante a segunda metade do século 18.

A partir daí vamos para o início do século 19, com o surgimento das plantações de cacau e o desalojamento de índios da terra ao longo da calha do rio Amazonas. Depois disso, o período da Independência e a divisão dos grupos existentes em diversas correntes. A simples existência destas correntes já é suficiente para mostrar que a Cabanagem não era um movimento homogêneo. Mas, ao invés disso, era composto de múltiplas tendências, que compartilhavam as mesmas motivações, mas que não agiam juntas.

P - As razões essenciais daquela guerra continuam presentes na região amazônica? De que modo – total ou parcialmente? Em que sentido?

MH – De certa forma elas continuam presentes, sim. E eu acrescentaria também o estado de semi-escravidão do pobre, seja através de dívidas ou de clientelismo político, e a imposição de planos de desenvolvimento e gestão completamente desconectados da realidade e das condições locais. Os de fora parecem achar que sabem o que é a Amazônia sem, de fato, fazer nenhum esforço para entendê-la. Neste sentido a Amazônia permanece marginal.

P – Se uma pessoa que tenha somente vagas informações sobre aquela guerra, de repente lhe perguntasse: Professor Mark, o que foi a cabanagem? O que responderia?

MH – Eu diria que a Cabanagem foi um movimento de pessoas pobres da Amazônia, que queriam poder escolher seus líderes, que queriam ser reconhecidos como legítimos cidadãos brasileiros e queriam lutar por uma terra com a qual se identificavam.

P – Concorda com alguns autores que a debilidade da cabanagem se deu por causa das lideranças localizadas em Belém, após a morte de Batista Campos?

MH – Não, eu não concordo que a fraqueza da Cabanagem era devido aos líderes de Belém. Primeiro, porque não acho que a Cabanagem foi um fracasso. Comparada com outras revoltas da época da Regência, ela foi muito mais bem-sucedida. Ela obteve êxito, como nenhuma outra rebelião conseguiu, em ocupar o governo da Província do Pará durante 15 meses. Os presidentes cabanos, Vinagre e Angelim, eram os chefes de governo durante este período, tentando trazer ordem e coesão a um movimento heterogêneo. Eles pagavam professores para ensinar, coletavam impostos, o mercado de escravos continuava ativo, e tudo mais.

O problema para a liderança era a natureza desorganizada do movimento. A dispersão geográfica da rebelião tornava difícil a conexão entre todas as posições. Além do mais, algumas vilas e centros urbanos permaneceram leais às forças imperiais, tais como Gurupá, Óbidos, Cametá e Macapá. Sem contar com os liberais radicais que mudaram de lado durante o conflito, como os irmãos Sanches de Brito, no Baixo Amazonas, que acabaram por lutar ao lado das forças imperiais.

DESCONFIO DE BATISTA CAMPOS

Por esta razão, desconfio de liberais radicais como Batista Campos. Eu o vejo mais como um político aproveitador, que precisava do apoio dos índios e dos pobres. Tudo o que ele queria, de fato, era o poder. Se ele tivesse sobrevivido, não creio que teria liderado da mesma maneira que Angelim. Batista Campos possuía claramente uma oratória brilhante e persuasiva. Mas não estou tão certo de que ele era um político habilidoso o suficiente para construir pontes seguras entre as diversas correntes existentes. Eu acho que o Angelim entendeu a importância da unidade e da disciplina.

Para completar, diria que não precisamos apenas compreender o que foi a Cabanagem, mas também a repressão sofrida e porque essa repressão foi tão brutal. Foi difícil resistir à repressão liderada pelo general Soares Andréa, embora pequenos grupos o tenham feito até 1840. Eu penso que as demandas dos cabanos não eram intrinsicamente diferentes das outras do período: elas não ameaçavam e nem pretendiam fazer uma revolução no Brasil. Ao invés disso, o tipo de pessoas que fazia estas demandas é que era visto como ameaçador. A elite do novo Brasil independente, na metade do período regencial, havia acordado do seu sonho liberal. Eles perceberam que não queriam compartilhar com os pobres, que haviam ajudado a lutar pela independência, o controle do processo político.

P – Concorda com Pasquale Di Paolo de que a cabanagem tem características de um genocídio?

MH- De maneira geral, não concordo com o Di Paolo, de que tenha sido um genocídio. Contudo, há indícios contraditórios.

P – De que modo os interesses das potências estrangeiras da época, particularmente Inglaterra e França, interferiram no conflito?

MH – Como todos sabem, os britânicos estavam envolvidos no transporte da corte de D. João VI de Lisboa ao Rio, em 1807/08, e vários mercenários britânicos ajudaram o Brasil a solidificar a Independência. Havia um grande número de negociantes britânicos, franceses, americanos e russos na Amazônia durante a Cabanagem.

Além disso, havia alguns negociantes clandestinos, como John Priest, o americano, que assassinou parte da tripulação britânica do navio Clio, nas proximidades de Salinas, na entrada do Pará. Durante o conflito propriamente dito, os franceses e britânicos estavam envolvidos de diversas maneiras. O cônsul francês, me parece, foi morto ou gravemente ferido no mês de janeiro, da insurreição. Os detalhes e as circunstâncias deste evento ainda não foram analisados.

O historiador paraense Jorge Hurley menciona a presença de franceses no Amapá e os esforços do general Andréa para tirá-los de lá. O problema é que grupos franceses estavam armando os rebeldes (talvez não oficialmente), talvez através das rotas comerciais da Guiana. Mas, porque eles estavam fazendo isso, ainda não está claro, é necessário pesquisar mais sobre este assunto. Graças a David Cleary, antropólogo britânico (autor de pesquisas sobre garimpos na Amazônia), nós sabemos mais sobre a participação britânica, que era significativa.

Através do massacre da tripulação do Clio, a marinha britânica se fez presente na baía de Belém. Eles negociaram com o governador cabano Eduardo Angelim, pedindo ressarcimento pela mercadoria perdida com o ataque ao Clio, por grupos cabanos. Eu não estou tão certo de que o Raiol estava falando a verdade quando disse que os britânicos ofereceram apoio a Angelim, caso eles quisessem a separação do resto do Brasil. Não há nada que sustente este ponto de vista nos documentos publicados por Cleary. A participação internacional no conflito ainda necessita de mais pesquisa.

O SIGNIFICADO DA CABANAGEM

P – Qual o significado histórico e contemporâneo da cabanagem para a Amazônia de hoje? Como o senhor vê o presente debate ambiental, que tem a Amazônia como item destacado, e a sua relação com aquele acontecimento do século 19?

MH – O significado histórico da Cabanagem é que ela foi uma rebelião em larga escala, que juntou todo tipo de gente – índios, mestiços, brancos e africanos. Ela conectou todo esse pessoal numa causa comum, mesmo que não totalmente homogênea. Esta foi a primeira e última vez que um número tão expressivo de povos se juntou. Isto para mim é super importante. Hoje em dia a ação política é bem mais fragmentada. Os movimentos indígenas e ambientais são mais cuidadosamente construídos ao redor de determinados tipos de identidade.

P - Em que estágio se encontram as suas pesquisas? Quando vai sair o seu livro e como será o título?

MH – Meu livro está quase pronto (foi publicado em 2010, e ainda não tem tradução para o Português, talvez porque não interessa a certas elites intelectuais paraenses de hoje remexer esse passado em geral mal contado). Eu quero comparar a Cabanagem com outras rebeliões no Brasil e contextualizá-la dentro da política imperial. Isso significa que esta discussão interessaria não apenas àqueles interessados na Amazônia, mas a um público muito mais amplo. Uma das motivações por trás deste livro é refletir sobre o lugar da Amazônia no continente sul-americano. Então, eu sinto que seja importante considerar como a Cabanagem torna a Amazônia ao mesmo tempo parecida e diferente do resto do Brasil, mas também de outros países sul-americanos. O livro vai se chamar ‘Rebellion on the Amazon: Race, Popular Culture and the Cabanagem in the North of Brazil’ (“Rebelião na Amazônia: Raça, Cultura Popular e Cabanagem no Norte do Brasil”) e será publicado pela Cambridge University Press.

Depois tenho dois projetos subsequentes. O primeiro diz respeito a recolher e analisar histórias da Cabanagem, particularmente na região do Tapajós. O segundo é o estudo da história das tradições e experiências religiosas na Amazônia. Ele se baseará num trabalho de campo na região do Baixo Amazonas e também em documentos da Inquisição (que datam dos anos 1760) existentes, em Lisboa.

P – Por que pesquisar a Cabanagem a partir da Escócia e da Europa?

MH – Como você sabe, eu fui à Amazônia pela primeira vez em 1992. Passei um ano e meio vivendo numa comunidade de várzea perto de Óbidos. Uma das pessoas que me ajudaram lá me pediu para contar mais a respeito da história colonial da região, e em particular, dos povos dos quais ele é descendente. Ele tinha ouvido falar que eles lutaram na Cabanagem, mas sabia muito pouco sobre eles. A resposta a esta pergunta me fez escrever o livro. Espero que meu informante fique satisfeito com ele.

 

 

 

 

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