Policial relata operação que flagrou coronel do 8° BEC vendendo madeira doada à corporação

Além do crime de corrupção que foi denunciado pelo MPF, o coronel Ribeiro, ex-comandante do 8° BEC, também foi denunciado nesta GAZETA DE SANTARÉM, com exclusividade, por venda de madeira doada àquela corporação pela Justiça Federal, para madeireira da cidade. A operação comandada pelo policial federal Newton Bustamante, é relatada com detalhes, que conta ainda dos problemas que enfrentou para enquadrar o militar no crime cometido.

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Os caminhões de madeira doada ao 8° BEC que foram vendidos a madeireira em Santarém

SANTARÉM – O policial federal Newton Bustamante, um dos responsáveis pela denúncias que levaram o MP Federal e Militar a denunciar o coronel Ribeiro, ex-comandante do 8° Batalhão de Engenharia e Construção (BEC) por crime de corrupção, fez um relato ao jornalista Jeso Carneiro (Blog do Jeso), sobre a operação em que o coronel Ribeiro foi flagrado vendendo madeira, doada àquela corporação pela Justiça Federal, a uma madeireira aqui em Santarém.

Em um trecho do seu relato, Bustamante cita esta GAZETA DE SANTARÉM como o único veículo de comunicação da cidade que teve a coragem de publicar a matéria denúncia. Leia abaixo o relato feito pelo policial federal.

“Caro senhor Jeso Carneiro, nem iria me manifestar sobre o assunto, uma vez que o mesmo gerou um transtorno enorme em minha vida, mas já que esta ação do Ministério Público Militar foi em razão das denúncias que fiz, resolvi expor a situação.

Em 2007, fui procurado por Militares do 8º BEC, e, segundo os mesmos, estaria havendo por parte do Comando daquela Instituição um desvio de madeira (que havia sido doada pela Justiça Federal ao Exército) para uma madeireira local.

Fiz os devidos levantamentos, e após aprovação do Chefe em Exercício, dei início a operação, junto com dois colegas, visando flagrar esse desvio.

Fui para rodovia e solicitei apoio da PRF para fazer uma barreira. A partir desse momento, ocorreram uma série de fatos que se eu for narrar aqui não terminarei hoje. O certo é que foi um jogo de “gato e rato”.

Depois de algumas horas, os caminhões saíram de dentro do BEC e desceram a Serra em direção a madeireira. Ao notar a passagem dos caminhões (estávamos escondidos em um ramal), saímos em direção aos mesmos com sirene e giroflex ligados e determinamos que parassem, ordem essa que não foi atendida. Quando chegaram na madeireira, o primeiro caminhão, que ia com um militar fardado na cabine, entrou e esse determinou que fechassem o portão.

Fiz a abordagem dele, enquanto os outros colegas abordavam os que não conseguiram entrar. Neste momento, o militar bradou que aquela madeira era do Exército Brasileiro. Calmamente, falei para ele que então me apresentasse a documentação correspondente, pois caso contrário, iria arrecadar os caminhões e apresenta-los na Delegacia. Foi quando ele me disse que aquilo ali era um esquema do Comandante com o dono da madeireira. Falei então que iria arrecadar tudo e levar para delegacia.

O coronel Ribeiro, ex-comandante do 8° BEC.

Nesse momento, ele se afastou, pegou o celular, fez uma ligação e retornou me oferecendo o aparelho dizendo que o Coronel Ribeiro estava me chamando para tomar um cafezinho lá no Comando. Não aceitei falar e disse para ele avisar o Coronel que ele fosse tomar o café lá na Delegacia.

Conduzi todo material para Delegacia, e após chegarmos dois dos colegas vieram indignados reclamar que o Delegado de dia havia dito que não iria fazer o procedimento, uma vez “que devíamos muitos favores ao Coronel”. Fui até ele questionar o fato, tendo o mesmo voltado a falar a mesma coisa.

Disse a ele que não devia nenhum favor ao Comandante e se alguma vez ele tenha contribuído com algum serviço para a Instituição, fato que eu desconhecia no comando dele, isso seria um favor institucional de Órgão para Órgão. Mesmo assim a Autoridade disse que não faria o procedimento, foi quando fomos até a presença do Chefe, que ao ouvir, determinou que o procedimento fosse feito.

O Coronel compareceu na delegacia e aí é outra parte que não irei comentar pois daria umas 100 linhas.

Isso tudo ocorreu em uma sexta-feira. Nesse mesmo final de semana, a Chefe Titular da Delegacia retornou de uma viagem e já no início da semana determinou a liberação da madeira. O Coronel então aproveitou e divulgou em toda imprensa que devido um ERRO cometido pela Polícia Federal, uma ponte da BR-163 poderia desabar, pois essa madeira era para ser utilizada no reforço da mesma. Ou seja, ainda jogou a opinião pública contra o Órgão, o que me deixou mais indignado.

Além disso, os PRFs que deram apoio ao serviço, ficaram desesperados, haja vista que foram informados que eu havia praticado uma operação irregular e que estava vindo uma equipe de Brasília para instaurar um Procedimento Disciplinar visando a minha demissão. Disse aos mesmos que não se preocupassem, uma vez que trabalhei dentro da lei e já que o próprio pessoal do meu órgão não me apoiou, com exceção do delegado que determinou a operação, eu iria (como sempre) “correr atrás” para que esse caso não ficasse na impunidade.

Procurei o Ministério Público Federal e diferente do que foi dito em um comentário, a Procuradora foi extremamente diligente e eficiente. Em pouco tempo preparou duas ações denunciando o Coronel, uma por Crime Ambiental e outra por Improbidade Administrativa. Na época, nenhum Órgão de comunicação aceitou divulgar esse fato, com exceção do Jornal Gazeta de Santarém, que foi o único que teve coragem e fez a reportagem.

Não satisfeito, consegui uma audiência com a Procuradora Geral do Ministério Público Militar, Dr. Claudia. Viajei por conta própria, sendo recebido pela Autoridade que foi de uma atenção excepcional.

Ao ouvir o meu relato, determinou que três Promotores cuidassem do caso, sendo que um deles, o Dr. Claudio, esteve três vezes em Santarém e foi de uma dedicação incrível ao caso. Graças ao mesmo, acho que o Coronel não ficará impune. Vale salientar que antes de viajar, fui novamente procurado por militares que não concordavam com a safadeza e me forneceram diversas notas fiscais referentes a atos ilegais praticados por ele.

Depois disso, consegui uma audiência com o Comandante do Exército, General Enzo, em Brasília. Por conta própria, me desloquei até lá, sendo recebido pelo mesmo que, após ouvir minhas denúncias, determinou que 5 (cinco) generais cuidassem do caso. O Comandante foi extremamente atencioso e demonstrou muito interesse que o caso fosse investigado.

Houve ainda a perseguição dele a diversos militares que ele desconfiava serem os que haviam me passado as informações, inclusive usou de seu poder determinando a instauração de procedimentos contra aos mesmos e até mandou prender um deles no dia 31 de dezembro de 2007. O que fez com que eu impetrasse um HC na JF em Belém, sendo que felizmente o Juiz determinou a sua soltura no mesmo dia.

A história é muito longa, mas irei parar por aqui. Só resolvi contar porque sofri muito com tudo isso. Lutar contra o sistema não é fácil, mas quem me conhece sabe que já estou acostumado a levar porrada, faz parte do ofício.

Particularmente, não tenho a menor esperança em nosso país. A corrupção está entranhada em todos os setores, e todo dia somos surpreendidos com mais e mais casos de corrupção. Temos uma legislação extremamente leniente que só favorece os bandidos. Por experiência própria, estamos em um país onde, na maioria dos casos, o crime compensa. Infelizmente!

Existem provas suficientes para esse militar “ir para rua”, e se nosso país fosse sério, ele já estaria na cadeia.

O que mais quero é conseguir daqui a um ano minha “carta de alforria”, e tentar superar e esquecer tudo que passei durante as décadas de dedicação ao serviço público.

No Brasil, polícia dá murro em ponta de faca diariamente!

Até hoje só não vi boi voar, o resto já vi de tudo!

 

 

 

 

 

 

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