Velhos tempos, belos dias. – Helvecio Santos

Castigado pelos 40 graus à sombra, com o sol subindo pelas pernas, pulando que nem canguru, ora para me livrar de um esgoto a céu aberto, ora para não tropeçar no desnível das calçadas, só pensava em alcançar a sombra amiga dos benjaminzeiros da praça e eis que acontece o inesperado: à minha frente lá estava o corpo do Olímpia, dilacerado, um rasgo aberto ao longo da sua ilharga. Definitivamente morto, ali estava, assassinada, mais uma referência santarena. Nos meus arroubos juvenis, no Olímpia elevei-me à condição de astro. Tornei-me então íntimo de Steve McQueen em “Sete Homens e um Destino”…

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Helvecio Santos  >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

Para quem viveu a época da Jovem Guarda, escutar “Jovens Tardes de Domingo”, letra de Roberto e Erasmo Carlos, dá um nó na garganta e o peito se estreita.

Agora, para quem viveu a época da Jovem Guarda na Santarém de antanho, escutar “Jovens Tardes de Domingo” e lembrar o que fizeram com pontos referenciais de nossa cidade, é um teste para o coração.

O ser humano tem essa veia diabólica de destruir tudo o que lhe dá prazer. Na lógica humana prazer e conservação não combinam. Por que?

E não venham dizer que sou catastrófico. Não! Não sou catastrófico! Sou realista e não adianta tapar o sol com a peneira. Exemplos? São muitos: Padaria Lucy, Coreto da Matriz, Escadaria do Frei Ambrósio, Cristo Rei, Vera Paz, Coroa de Areia, Estádio Elinaldo Barbosa, mangueiras da São Sebastião, lago do Maicá, campo do Veterano etc etc etc.

A última vítima? O Lago do Joá.

E tem candidato a prefeito que na propaganda política eleitoral, para mostrar seu amor pela Terrinha, diz que tomou banho na Coroa de Areia. Pasmem! Por ação ou omissão, esse candidato foi participante da destruição do Joá, pois era do círculo familiar e do primeiro escalão do governo que autorizou o desmatamento e terraplanagem no entorno do lago.

Com leveza, sensibilidade e muito amor, a música tem o condão de me conduzir e creio que a todos da minha faixa etária, a tardes santarenas regadas a cuba libre, ao som de hi-fi em vesperais dançantes no salão paroquial, ou a cowboys embrenhando-se em caravanas rumo ao Velho Oeste pelas mãos do projetor do Olímpia, sob o comando do competente Edmundo.

Jovens tardes de domingo,

Tantas alegrias

Velhos tempos, belos dias.

Era uma época onde as pessoas se olhavam e conversavam e nem sequer se imaginava que num futuro próximo o chique seria olhar e falar com aparelho celular.

Decididamente o Olímpia não foi o melhor cinema que frequentei, mas com certeza foi o mais marcante.

Por que falo disso agora?

Bom, numa dessas saarianas manhãs santarenas, perdi a noção do tempo no Centro de Artesanato Cristo Rei e quase ao meio dia, encarei a travessa da “Matriz”.

Castigado pelos 40 graus à sombra, com o sol subindo pelas pernas, pulando que nem canguru, ora para me livrar de um esgoto a céu aberto, ora para não tropeçar no desnível das calçadas, só pensava em alcançar a sombra amiga dos benjaminzeiros da praça e eis que acontece o inesperado: à minha frente lá estava o corpo do Olímpia, dilacerado, um rasgo aberto ao longo da sua ilharga.

Definitivamente morto, ali estava, assassinada, mais uma referência santarena.

Nos meus arroubos juvenis, no Olímpia elevei-me à condição de astro.

Nos meus arroubos juvenis, no Olímpia elevei-me à condição de astro. Tornei-me então íntimo de Steve McQueen em “Sete Homens e um Destino”, visitei “Rastros de Ódio” com John Wayne, vi a entrega de “Os Dez Mandamentos” a Moisés (Charlton Heston), a despeito de Ramsés II (Yul Brynner) e sua linda Nefertari e babei por Ursula Andress quando do anúncio do “Crepúsculo das Águias”.

Vi também “Marcelino Pão e Vinho” ser acalentado por um franciscano gorducho que embalava o berço descascando batatas.

Como nem tudo são flores, ali levei “cascudos” de “dom juans” irados que se negavam a dar uns trocados para eu ceder a cadeira que suas donzelas reservavam para o apagar das luzes. Verdade seja dita, dei muito prejuízo aos galãs. Levava “cascudo” mas deixava a goma de mascar colada no assento da cadeira para servir de lição ao “mão de vaca”.

Ali vi um crédulo companheiro de bagunças subir no muro, gritar a palavra mágica e deixar metade da pele do joelho e um tanto do nariz nos paralelepípedos da rua, pois pensava que a palavra mágica o faria voar como os heróis Shazan e Superman.

Ali dei meus primeiros e acanhados beijos, coisa de amador, coadjuvados por amadoras adolescentes, mas que na aurora de minha sexualidade me faziam sentir como Humphrey Bogart em “Casablanca”.

Decididamente descer a Travessa da Matriz em busca da sombra dos benjaminzeiros e ver o que fizeram com aquele tempo de sonhos me deixou bastante triste.

Lá estavam as entranhas dilaceradas daquele que um dia foi o Cine Olímpia e pude constatar o estrago que fizeram no companheiro das minhas jovens tardes de domingo.

Num instante, tudo o que guardava dele na parte mais nobre e pura da minha memória veio abaixo. Aqueles momentos que a memória guarda da fuga dos dias, desceu como um temporal ladeira abaixo.

O palco ainda está lá, hoje depósito desses nojentos inservíveis de plástico fabricados d’outro lado do mundo. As cortinas, sujas, em frangalhos, totalmente desprezadas, ainda se podem ver. O rebaixamento do teto ainda se sustenta, a muito custo.

Rotos, lá estão restos de uma Santarém romântica que sessentões como eu tiveram a felicidade de viver.

Talvez a manutenção daqueles despojos seja um toque de maldade para lembrar que no mundo de hoje tudo se troca por dinheiro. Será?

Fui até próximo à tela, fiz um giro de 180 graus e parei. Fechei os olhos e pude ver o facho de luz que a projetora desenhava por cima da cabeça dos aficionados. A luz apagou, a cortina não se abriu. Era sonho!

Olhos abertos, a realidade é cruel e o sol lá fora continuava inclemente.

Já na saída a plateia se resumia a três moças que conversavam com seus celulares e, vez por outra, mostravam umas às outras a tela do “robozinho” preferido e faziam comentários. Ninguém me notou. Que bom!

Eu era um poço de recordações!

Decididamente,

O que foi felicidade

Me mata agora de saudade

Velhos tempos,

Belos dias.

P.S.: dedico estes escritos a meu inesquecível irmão Eriberto, que viveu esses “velhos tempos” com “cabeça de homem, mas o coração de menino”.

 

 

 

 

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