Por que a comparação com Savonarola irritou tanto Sérgio Moro? Por Kiko Nogueira

Moro diz que o articulista realizou “equiparações inapropriadas com fanático religioso”, referindo-se a Girolamo Savonarola. No texto, Cerqueira Leite alerta o magistrado de que “o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai vosmecê sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes.” Savonarola não foi simplesmente um “fanático religioso”. Nascido numa família nobre de Ferrara, tornou-se um reformista dominicano e um asceta obcecado com a corrupção florentina nos anos do Renascimento. Por que essa comparação incomodou tanto Moro?

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Kiko Nogueira  >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

O juiz Sérgio Moro enviou uma carta enfezada à Folha de S.Paulo, protestando contra artigo de Rogério Cezar de Cerqueira Leite.

Moro diz que o articulista realizou “equiparações inapropriadas com fanático religioso”, referindo-se a Girolamo Savonarola.

No texto, Cerqueira Leite alerta o magistrado de que “o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai vosmecê sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes.”

Savonarola não foi simplesmente um “fanático religioso”. Nascido numa família nobre de Ferrara, tornou-se um reformista dominicano e um asceta obcecado com a corrupção florentina nos anos do Renascimento.

Messiânico, criou ali um modelo de estado cristão, cujo maior emblema era a chamada Fogueira das Vaidades, na qual ele e seu séquito queimavam, entre outras coisas, livros “impróprios”.

Por que essa comparação incomodou tanto Moro?

Abaixo, um breve perfil de Savonarola, segundo o historiador Richard Cavendish.

Estátua de Savonarola em Ferrara

Visionário, profeta e formidável pregador apocalíptico, obcecado com a maldade humana e convencido de que a ira de Deus estava prestes a cair sobre a Terra, ele detestava praticamente todas as formas de prazer e relaxamento.

Seus adversários chamavam Savonarola e seus seguidores de “piagnoni” — chorões —, e ele reprovava severamente piadas e frivolidade, poesia e tavernas, sexo (especialmente a variedade homossexual), jogos de azar, roupas finas, jóias e luxo de todo tipo. 

Denunciou as obras de Boccaccio, pinturas de nus, imagens de divindades pagãs e toda a cultura humanista do Renascimento italiano. Pediu leis contra o vício e a frouxidão. 

Colocou um fim aos carnavais e festivais que os florentinos tradicionalmente apreciavam, substituindo-os por festas religiosas, e empregou jovens na rua como uma Gestapo júnior para farejar itens suspeitos. 

A famosa “Fogueira das Vaidades”, em 1497, tinha jogos, cartas, máscaras de carnaval, espelhos, enfeites, estátuas, livros supostamente indecentes e imagens. O frei também desaprovava especulações financeiras e empresários.

Não surpreendentemente, Savonarola fez muitos inimigos poderosos. Entre eles estava o papa Borgia, Alexandre VI, que tinha boas razões para se sentir desconfortável com as denúncias de luxo da Igreja e de seus líderes e que acabou excomungando o dominicano. 

No Domingo de Ramos de 1498, o convento de São Marcos foi atacado por uma multidão e Savonarola foi preso pelas autoridades de Florença juntamente com dois frades que estavam entre seus seguidores mais ardorosos, frei Silvestro e frei Domenico. 

Todos os três foram torturados antes de condenados como hereges e entregues a dois comissários papais que viajaram diretamente de Roma em 19 de maio. “Teremos uma bela fogueira”, disse o comissário mais velho, “pois trago a condenação comigo”.

O martírio de Savonarola na Piazza della Signoria, em Florença

Algumas pessoas da multidão gritaram xingamentos para Savonarola e seus dois companheiros, que foram deixados em suas túnicas, com os pés descalços e as mãos amarradas, antes de seu cabelo ser raspado, como era costume. Diz-se que um padre perguntou a Savonarola como se sentia sobre o martírio que se aproximava. Ele respondeu: “O Senhor sofreu o mesmo por mim”, e estas foram suas últimas palavras registradas.

Frei Silvestro e frei Domenico foram enforcados primeiro, lenta e dolorosamente, antes de Savonarola subir a escada para ocupar o lugar entre eles. As chamas o engoliram e ele morreu de asfixia por volta das 10h. Ele tinha 45 anos de idade. Alguns dos espectadores explodiram em lágrimas e outros, incluindo crianças, cantaram e dançaram alegremente ao redor da pira, enquanto atiravam pedras contra os cadáveres. O pouco que restou dos três dominicanos foi atirado no rio Arno.

 

 

 

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