O confederado predador – Por Jota Ninos

O prefeito de Santarém, Alexandre Von, já ganhou a fama de preguiçoso, por supostamente não mostrar a que veio em três anos de mandato. Alexandre Wanghon, o Von, é descendente de família de Confederados, aqueles cidadãos norte-americanos que perderam a Guerra da Secessão nos EUA no século XIX, por não aceitarem o fim da escravidão que acabaria com seus negócios nos estados do sul daquele país. Alexandre Von é um brasileiro que representa a elite amazônica, com a velha fleuma dos Confederados americanos. Sabe onde quer chegar, e para isso não lhe importa que outro brasileiro, como o pescador Sabá esteja em seu caminho para lembrar que um santuário ecológico pode desaparecer em nome do progresso.

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Jota Ninos  _________________________________

O prefeito de Santarém, Alexandre Von, já ganhou a fama de preguiçoso, por supostamente não mostrar a que veio em três anos de mandato. Há até quem diga que isso deve pesar contra ele na sua tentativa de reeleição no próximo ano.
Mas na política há coisas que parecem ser uma coisa e acabam sendo bem piores. Já convivi com Alexandre de perto e realmente ele parece muito lento nas coisas que faz, mas que ninguém se engane: ele sabe aonde quer chegar.
Alexandre Wanghon, o Von, é descendente de família de Confederados, aqueles cidadãos norte-americanos que perderam a Guerra da Secessão nos EUA no século XIX, por não aceitarem o fim da escravidão que acabaria com seus negócios nos estados do sul daquele país.
Após a guerra, vários deles resolveram migrar ainda mais pro sul do continente americano, mais especificamente na América do Sul, onde havia terras em expansão, principalmente na Amazônia.
Alguns acabaram fincando raízes em Santarém, onde são tidos como grandes empreendedores na produção agrícola, com inovações tecnológicas e construção naval, já que se embrenharam em áreas rurais ribeirinhas como o Ituqui e Maicá.
Um deles, Richard Hennington, que era pastor evangélico e construtor, foi responsável pela construção do nosso primeiro trapiche para atracação de embarcações em Santarém, onde hoje existe o TFT- Terminal Fluvial Turístico, na orla da cidade em frente à praça do pescador.
Esse dinamismo e visão de futuro, colocou os Confederados na história de Santarém. Alexandre, como seus antepassados, tem o objetivo de entrar para a história com um programa de macro desenvolvimento para a região, baseado na implantação de projetos que beneficiem grandes empreendimentos econômicos, como o entreposto comercial da Zona Franca e a dinamização dos modais de transporte rodofluvial.
A cereja do bolo deste programa é a construção de mais um terminal graneleiro de exportação, na área do Maicá, que consolidará a posição de Santarém como o maior corredor de escoamento da produção de grãos do Centro-Oeste brasileiro.

Alexandre Von é um brasileiro que representa a elite amazônica, com a velha fleuma dos Confederados americanos.

Alexandre acalenta esse sonho desde que foi vereador no final dos anos 1980. Metódico e inteligente, elegeu-se presidente da Câmara Municipal no início de seu mandato e liderou o processo de organização burocrática da cidade, começando pela Lei Orgânica do Município. Não se recandidatou em 1992, porque talvez atuar no legislativo municipal lhe consumisse o tempo de planejador nato.

Na administração de Ruy Corrêa (1993-1996), assumiu esse posto e deu à Prefeitura uma estrutura administrativa que não tinha e que até hoje está lá, com algumas modificações que ele mesmo implantou nas duas gestões em que foi vice-prefeito e parceiro de Lira Maia (1997/2004), sempre acumulando a mesma pasta de Planejamento. Eleito prefeito em 2012, azeita essa estrutura para continuar seus ideais.
A chegada de produtores de soja para se fixarem em Santarém, foi incentivada ainda no governo de Ruy e tinha em Alexandre o grande entusiasta. No governo Maia, com o apoio de Almir Gabriel, veio a Cargill, multinacional de alimentos e o primeiro porto graneleiro. As digitais de Von estão lá.
O porto da Cargill instalado ao arrepio da lei, sem EIA-RIMA, virou uma dor de cabeça jurídica, com o MPF tentando implodir o empreendimento e gerando uma guerra entre ambientalistas e empresários, nos anos 1990. O capital venceu e o porto não só ficou, como se expandiu.
Agora, Alexandre prepara as bases para um novo empreendimento que deve gerar novas controvérsias. Mas como não quer ter os mesmos problemas ocorridos com a Cargill, trabalha na surdina, com apoio de empresários e até de lideranças comunitárias para implantar o novo porto, sob a égide de seu slogan de campanha: “Desenvolvimento Sustentável”, novo mantra do capitalismo para justificar empreendimentos que impactam a natureza.
Alexandre Von é um brasileiro que representa a elite amazônica, com a velha fleuma dos Confederados americanos. Sabe onde quer chegar, e para isso não lhe importa que outro brasileiro, como o pescador Sabá (muito bem retratado pelo poeta das imagens Nilson Vieira, que interrompeu sua árdua caçada fotográfica ao por do sol santareno, para nos contar a tragédia de um simples brasileiro, no texto abaixo), esteja em seu caminho para lembrar que um santuário ecológico pode desaparecer em nome do progresso.
E nós, do lado de cá, vamos usar pelo menos nosso direito a um jus sperneandi ou nos calaremos com a boca de feijão como diria Chico Buarque?
O lago do Maicá é importante, assim como era a Vera Paz, hoje Cargill, assim como é importante o Juá, que ainda pode virar apenas um esgoto a céu aberto do empreendimento imobiliário da Buriti (que, aparentemente, é combatido por Von e seu fiel escudeiro ambientalista Podalyro Neto).
Nossa cidadania precisa reflorescer para questionar esses empreendimentos “sustentáveis”, antes que locais como o Maicá e pessoas como seu Sabá virem apenas uma foto drummondiana pendurada na parede de nosso descaso…
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