Motos, mortes e mutilados, a guerra das ruas

Uma geração de mutilados está em formação em Santarém. Quase dois mil motoqueiros vitimados, a grande maioria mototaxistas, entre eles 200 mortos, e aqueles que ficaram sem pernas e braços, sem futuro. Tristes. Deprimidos na flor da idade. O que acontece hoje nas ruas da cidade não é mais um ‘problema de trânsito’, é uma guerra silenciosa. Trata-se de um gravíssimo ‘problema social’ que estranhamente não chama atenção das autoridades ditas responsáveis.

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Além dos dramas humanos, os acidentes custam somas elevadas para os setores de saúde, além dos prejuízos sociais e previdenciários.

 

Reportagem: Celivaldo Carneiro, Tatiane Lobato Débora Xavier, Jarlisson Gamboa e Adriana Pessoa 

SANTARÉM- Duzentos mortos. Além disso, a violência do trânsito em Santarém vem produzindo uma legião de estropiados. A causa de tantas mutilações é sempre a mesma, desastres com motocicletas. São centenas de vítimas, a maioria mototaxistas sem licença para dirigir e, mesmo assim, carregando passageiros nas garupas perigosas.

Números do setor de traumatologia do Hospital Municipal de Santarém indicam que no ano passado foram registrados 3.142 acidentados. Deste total, 1.870 (60%) envolveram motocicletas.

A situação é tão estarrecedora que lembra as guerras africanas. Em Angola, por exemplo, milhares de pessoas são vítimas de mutilações causadas por minas terrestres. Aqui, como na África, também estamos em situação de guerra, real mas não declarada, que parece não sensibilizar os responsáveis pelo bem público.

Além dos dramas humanos, os acidentes custam somas elevadas para os setores de saúde, além dos prejuízos sociais e previdenciários. Estudo feito pelo neurocirurgião Erick Jennings Simões revela com clareza esta realidade. “Pelo menos 390 pacientes foram operados para correção de lesões graves, devido a acidentes com motos.

Como o hospital atende toda a região (em média 40% das cirurgias grandes são de outros municípios), estimamos que só na cidade de Santarém 234 pessoas foram operadas por acidentes com moto em 2006”, informa o médico.

SEQUELA MORAL Erick Jeninngs explica ainda que, como a taxa de morbidade para algumas destas seqüelas físicas ultrapassa os 90%, significa dizer que a cada 36 horas temos mais um mutilado na cidade.

As vítimas, parte dessa triste estatística, normalmente são pessoas vindas do interior e sem o costume da convivência com as regras da vida urbana. Mutiladas, descobrem que têm para encarar uma nova maneira de viver.

Após o trauma, buscam razões para explicar e entender seu sofrimento, normalmente desagradável. “Além das seqüelas físicas, existe o que podemos chamar de seqüela social. Criamos uma multidão de beneficiados do governo e dependentes de ajuda familiar, que mesmo depois de aptos ao trabalho não sabem ou não querem ser mais produtivos na sociedade”, explica o médico.

Ele enfatiza que a pior das lesões é a ferida na dignidade, na moral. “A continuar com esta tendência, teremos mais e mais pessoas deficientes e muitas pedindo esmolas na rua. É mais fácil permanecer na cidade do que voltar para o interior com a capacidade física alterada”, avalia Erick Jennings.

A legalização do serviço de mototaxi vai oficializar a mais dramática das realidades vivenciadas nos últimos anos por mutilados em acidente que utilizaram o serviço na cidade.

Centenas deles perambulam em busca de auxílio. Talvez nada disto seja suficiente sensibilizar as autoridades e nem mesmo uma parcela significativa da sociedade. É a banalização do horror. O horror também anestesia.

Legal ou não?

João Nilson Portela de Azevedo, 20 anos, perdeu o pé direito, em um destes acidentes

Com o serviço legalizado, os mototaxistas não escondem a alegria da vitória e jogam a culpa nos clandestinos como únicos responsáveis por tantos mutilados. “São poucos os registros de acidentes envolvendo os credenciados. Quando há, é de pequena proporção”, garante Antônio Aguiar, presidente da Associação dos Mototaxistas de Santarém.

Aguiar não esconde, porém, a preocupação com o número enorme de acidentes envolvendo motociclistas. Preocupa-se também com o aumento de mototaxistas credenciados para 450 condutores, aprovado pela Câmara Municipal, projeto enviado pela prefeita Maria do Carmo Lima.

Diz ele também que a superação desta realidade se dará com a conscientização dos que dirigem motocicletas através de cursos de formação “É preciso que os mototaxistas se conscientizem da responsabilidade que envolve o transporte de pessoas. São vidas que precisam de garantia, de zelo e de atenção”, enfatiza.

Ele diz já ter a garantia de uma seguradora para fazer seguro contra acidentes. “Tanto o usuário como o condutor serão amparados em caso de acidente”, afiança, lembrando que é preciso, no entanto, um combate efetivo aos clandestinos para que os mutilados sejam casos fortuitos.

Para Aguiar a proliferação de tantos mototaxistas clandestinos se deve quase unicamente ao reduzido número de vagas disponibilizadas inicialmente, pois “o número não era suficiente para atender a toda a demanda da cidade, mas com a liberação de mais 232 vagas, o serviço vai melhorar este atendimento”, acredita.

Ele diz esperar que somente com efetivo combate a clandestinos é que se terá uma diminuição significativa do número de acidentes e consequentemente de mutilados.

IRREGULAR Utilizar motos com finalidade comercial foi considerado ilegal pelo Supremo Tribunal Federal, em setembro do não passado, depois que julgou como irregulares leis que amparavam o serviço nos estados do Pará e Minas Gerais.

O agricultor Raimundo Inácio Silva, 56 anos, sofre não só com as seqüelas deixadas por um acidente de moto.

Em Santarém, o serviço foi instituído por decreto municipal há cinco anos, e passou a ser irregular desde o segundo semestre de 2006. Fiscalizações foram feitas pelos órgãos do Estado e do Município para cumprimento da decisão. Os mototaxistas que atuavam de forma credenciada foram obrigados a fazer a descaracterização do veículo e ficaram impedidos de exercer a profissão.

Em abril deste ano o serviço foi autorizado novamente em Santarém por um projeto de lei, de iniciativa da prefeitura, aprovado na Câmara Municipal, logo depois sancionado com base em lei estadual, e que segundo as autoridades está dentro do que estabelece o Código de Trânsito Brasileiro.

O projeto estabelece mudanças para esta nova fase do serviço, incluindo o aumento do número de permissionados, de 218 para 450 vagas.

RECADASTRAMENTO Segundo o secretário municipal de Transportes, José Antônio Rocha, os que já atuavam no serviço passarão por um processo de recadastramento. As vagas restantes serão preenchidas por licitação.

“Esse processo licitatório vai possibilitar que pessoas que trabalhavam de forma irregular possam concorrer a vaga e, caso consigam, passem a trabalhar na legalidade. É uma forma também de o poder público ampliar o serviço e combater a clandestinidade” disse José Antônio Rocha.

Em 95% dos acidentes de trânsito que acontecem em Santarém as motos estão envolvidas e em muitos deles as lesões são gravíssimas. Sobre a segurança no serviço, Rocha confirma que o índice de acidentes no trânsito envolvendo a categoria legalizada é muito baixo, e que segundo ele a legalização do serviço permitirá que a Secretaria Municipal de Trânsito (SMT) possa ter mais controle.

“Claro que vamos trabalhar em parceria com outros órgãos na fiscalização e combate aos clandestinos. A legalização é a única forma de também cobrar da população que utilize somente o serviço autorizado” ressalta o secretário.

A SMT vem discutindo com o Sindicato dos Mototaxistas a possibilidade de implantação de um seguro de vida para o condutor da moto e do passageiro, mas existem dificuldades. “Não há seguradoras na região que executem esse tipo de serviço”, explica.

A expectativa da categoria e do poder público, no entanto é que até o próximo mês de julho o serviço volte a ser oferecido apenas de forma legalizada.

 

Os sobreviventes e suas amargas experiências

No Beco da Paz, n° 90, bairro do Santarenzinho, mora o mecânico João Nilson Portela de Azevedo, 20 anos. Ele perdeu o pé direito, em um destes acidentes, ano passado, na Avenida Cuiabá.

Mesmo sem possuir habilitação, o estudante contou que no dia 5 de fevereiro de 2005 pilotava sua moto, às 15 horas, e ao chegar próximo ao motel Hipopótamos, na avenida Fernando Guilhon, foi surpreendido pelo motorista de uma Kombi, que atravessou a avenida preferencial.

A colisão foi inevitável. Com o choque, o mecânico teve o pé direito decepado pelo parachoque da Kombi. Até hoje, João Nilson não se recuperou do trauma de ter ficado sem um pé.

O motorista Marcelo Augusto Araújo Ribeiro, residente na rua Antônio Bastos, 2296, bairro do Caranazal, que dirigia a Kombi de placa JTU-0919, garante que não teve como evitar a colisão.

Disse mais: que não parou para socorrer a vítima, com medo de ser agredido por populares. Marcelo contou que chegou a levar o pé decepado do estudante ao hospital, por volta das 20 horas, mas lamentou não ter havido tempo hábil para que os médicos fizessem o reimplante.

A mãe do mecânico, a viúva Vicenza Portela de Azevedo, lamenta o acidente e diz que enfrenta dificuldades, pois o filho era a única fonte de renda da família. João perdeu ainda o emprego e a namorada. E, por acréscimo sofre de depressão.

Cleberson Carlos Barroso, 31, também engrossa, como vítima, essa estatística.

PERNA DECEPADA O ex-padeiro e atual vice-presidente da Associação dos Deficientes Físicos de Santarém, Cleberson Carlos Barroso, 31, também engrossa, como vítima, essa estatística. Não habilitado e insatisfeito com a sua renda, foi trabalhar como mototaxista.

Em 3 de fevereiro de 2002, quando trafegava na Avenida Fernando Guilhon, próximo ao Conjunto Primavera, chocou-se com um automóvel, que fez uma ultrapassagem imprudente. O desastre foi tão violento que Cleberson teve a perna decepada no local.

O acidente deixou ainda sequelas na mão, impossibilitando que ele trabalhe como padeiro. Além das marcas desta tragédia, ele carrega consigo também o desemprego e passou a depender de uma pensão.

No bairro do Santarenzinho, o agricultor Raimundo Inácio Silva, 56 anos, sofre não só com as seqüelas deixadas por um acidente de moto. Não conseguiu até hoje restabelecer a normalidade de sua vida. Sem trabalho, depende da ajuda de um cunhado e de uma pequena venda montada em frente a sua casa.

Junto com ele, seu vizinho, que seguia como passageiro, também perdeu a perna. Raimundo reconheceu ter avançado o sinal e disse que foi violentamente atingido por uma picape.

O que mais chama atenção, no entanto, em todos estes dramas, é o descaso das autoridades para a situação de guerra, realidade incontestável.

Enquanto isso, a cidade assiste à inércia dos agentes que deveriam ser responsáveis por coibir estas irregularidades. Por enquanto, nada foi feito para acabar com esta legião de mutilados que só tende a aumentar.

(Reportagem publicada originalmente em junho de 2007, no jornal experimental CidadeMídia do curso de Jornalismo no Iespes)

 

 

 

 

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