Cargill lidera banquete dos 400 anos de colonização da Amazônia – Por Manuel Dutra

É a atualização do processo colonial que parece querer eternizar-se, com a decidida solidariedade daqueles grupos econômicos e políticos locais a que se chama comumente de elite. Sim, a relação é colonial porque, nesse tempo todo, os saqueadores enriqueceram, e os povos da Amazônia ficaram mais pobres do que antes. Essa é a essência da colônia: a solução de problemas externos em detrimento dos problemas internos. Ou, como se diz com mais clareza: encher a barriga dos outros e ficar com a própria barriga vazia…

Imprimir

Manuel Dutra  _____________________________

SANTARÉM - A expansão do porto da Cargill, a construção de outro porto desta mesma empresa em Miritituba, município de Itaituba, e os projetados portos da Embraps, da Ceagro e da Cevital, na margem do Lago Maicá, todos dentro da cidade, faz de Santarém talvez a cidade mais invadida pelo latifúndio, agora chamado de agronegócio, em toda a Amazônia.

A expansão da Cargill, com enormes silos e esteiras de transporte de grãos dentro da área urbana, custou R$ 240 milhões, construídos dentro de duas áreas que pertenciam à CDP, a Companhia Docas do Pará.

Segundo informa a própria empresa, a ampliação vai aumentar a capacidade de armazenamento das atuais 60 mil toneladas para 114 mil toneladas, com a instalação de mais três silos metálicos com capacidade individual de 18 mil toneladas.

O objetivo é passar dos atuais dois milhões de toneladas de grãos ao ano para cinco milhões de toneladas exportadas.

Visão de um dos silos da Cargill, em Santarém: o latifúndio e seus braços chegam à cidade

PROJETO ATUALIZADO A Cargill é uma empresa privada, multinacional, com sede no estado de Minnesota, nos USA, cuja atividade é a produção e o processamento de alimentos.
Atualmente é a maior empresa do mundo de capital fechado, e está presente nos 5 continentes, empregando mais de 150.000 pessoas em 67 países.
Foi fundada em 1865 e tornou-se a maior corporação do mundo de capital fechado (em termos de receitas).
Atividades da Cargill incluem a compra, processamento e distribuição de grãos e outras commodities agrícolas, da fabricação e venda de ração animal, ingredientes para alimentos processados, produtos farmacêuticos e bens de consumo e produção de alimentos.
Ela também opera um grande braço de serviços financeiros, que gerencia os riscos nos mercados de commodities para as empresas.
MUITO ANTES… Muito antes de a Cargill chegar ao interior da Amazônia, quem chegou foi El Rey, representado por seus capitães e donatários; o grande senhor que aqui desembarcou da Europa já sendo dono de tudo, antes mesmo de pisar na praia. Tinha o poder de dar as “suas” terras a seus amigos e parentes e assim o fez durante os primeiros tempos.
Mais tarde, no meado do século 18 chegou a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, empresa privilegiada, de carácter monopolista, criada pelo Marquês de Pombal, na segunda metade do século XVIII, em Portugal.
Fundada em 1755, destinava-se a controlar e fomentar a atividade comercial com o Estado do Grão-Pará e Maranhão, fortalecendo a prática do mercantilismo no reino.
A Amazônia de então passou a pertencer a essa companhia. Mais tarde, vieram outras, muitas outras empresas que, a partir sobretudo dos governos militares, obtiveram carta branca para aprofundar o saque das riquezas naturais da Amazônia, desprezando os seus povos.
SEM CERIMÔNIA A Cargill é, neste momento, apenas a maior. É a atualização do processo colonial que parece querer eternizar-se, com a decidida solidariedade daqueles grupos econômicos e políticos locais a que se chama comumente de elite.
Sim, a relação é colonial porque, nesse tempo todo, os saqueadores enriqueceram, e os povos da Amazônia ficaram mais pobres do que antes. Essa é a essência da colônia: a solução de problemas externos em detrimento dos problemas internos. Ou, como se diz com mais clareza: encher a barriga dos outros e ficar com a própria barriga vazia…
As fotos publicadas acima, mostrando os novos silos e das esteiras da Cargill, construídos em 15 meses a partir de maio do ano passado, indicam que a invasão do latifúndio chega à área urbana de uma das principais cidades do Pará.
Sem cerimônia, quase ocupando a principal rua de Santarém, a avenida Tapajós. Como que se antecipando aos festejos dos 400 anos da efetiva ocupação da Amazônia por forças externas, a partir do que viria a ser a cidade de Belém.
Imprimir

Deixe um comentário

Current month ye@r day *